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empessoa:

O único mistério no universo
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
Por que há aqui, dores, consciência e diferença?
 

Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988.
Zoom Info
Camera
Nikon D3100
ISO
100
Aperture
f/13
Exposure
1/100th
Focal Length
30mm

empessoa:

O único mistério no universo

É haver um mistério do universo.

Sim, este sol que sem querer ilumina

A terra e as árvores, e as estações todas;

As pedras em que eu piso, as casas brancas,

Os homens, o convívio humano, a história,

O que se passa — tradição ou fala —

Entre alma e alma — as vozes, as cidades —

Tudo nem traz consigo a explicação

De existir, nem tem boca com que fale.

Por que razão não raia o sol dizendo

O que é? Por que motivo sossegado

Existem pedras sob os meus passos, e ar

Que eu respiro, e eu preciso respirar?

Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.

Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,

Ignoramos.

Por que há? Por que há um universo?

Por que é um universo que é este?

Por que é assim composto o universo?

Por que há? Por que há o que há?

Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?

Por que há aqui, dores, consciência e diferença?

 

Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988.

empessoa:


Não, nem no sonho a perfeição sonhada 
Existe, pois que é sonho. Ó Natureza, 
Tão monotonamente renovada, 
Que cura dás a esta tristeza? 
O esquecimento temporário, a estrada 
Por engano tomada, 
O meditar na ponte e na incerteza… 

Inúteis dias que consumo lentos 
No esforço de pensar na acção, 
Sozinho com meus frios pensamentos 
Nem com uma esperança mão em mão. 
É talvez nobre ao coração 
Este vazio ser que anseia o mundo, 
Este prolixo ser que anseia em vão, 
Exânime é profundo. 

Tanta grandeza que em si mesma é morta! 
Tanta nobreza inútil de ânsia e dor! 
Nem se ergue a mão para a fechada porta, 
Nem o submisso olhar para o amor! 

Amiel20-8-1925 , Fernando Pessoa, Em ’Poesias Inéditas (1919-1930), 1956. Ed. Ática, Lisboa (imp. 1990)’ 

empessoa:

Quando estou só reconheço

Se por momentos me esqueço

Que existo entre outros que são

Como eu sós, salvo que estão

Alheados desde o começo.

 

E se sinto quanto estou

Verdadeiramente só,

Sinto-me livre mas triste.

Vou livre para onde vou,

Mas onde vou nada existe.

 

Creio contudo que a vida

Devidamente entendida

É toda assim, toda assim.

Por isso passo por mim

Como por coisa esquecida.

Quando Estou Só Reconheço, 9-8-1931,Fernando Pessoa, Em ‘Novas Poesias InéditasFernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993)’.

É um pouco aflitivo pensar nisso, e imaginar que, acima dos gestos e das palavras, o sentimento talvez valha alguma coisa; e que a ternura e o bem-querer devem ter um instinto certo e tocar naquelas zonas indefiníveis da alma em que nem os analistas conseguem explicar nada. Ora, pois; mesmo às cegas, burramente, amemos!
Rubem Braga, “Amemos burramente” - em cartão postal de Paris (via temploculturaldelfos)
É tempo de ter um amuleto amarelo com um amor bordado dentro
É tempo de cavar as palavras secas no fundo do pescoço
É tempo de descobrir o rubi que você pensa que é uma pedra nos sapatos
É tempo do tempo morto morrer dentro de você
É tempo de nascer o poeta inato que você é
Mano Melo, trecho de “Toque”, no livro “República dos Poetas; antologia poética”. Rio de Janeiro: Museu da República Editora, 2005. (via temploculturaldelfos)

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia… – não consentidas,
mas recebidas e esperadas!)

__Cecília Meireles, Transição

À memória de
Jacinta Garcia Benevides
Minha avó


Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.

Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero
das vespas…
- e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.

Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.

Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

__Cecilia Meireles, Elegia 2ª

(Fonte: we-love-rain)

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

__Cecília Meireles, Atitude, in ‘Viagem’

(Fonte: lianabela)

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