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Oswaldo Montenegro - Amores…

Cada alegria desfaz algum nó
Não é preciso entender as paixões
Cada manhã vai te encontrar
Mesmo sem você querer
Mesmo se o sono durar
Sim, cabe ao amor te aliviar
Do que te cansa
Sai, dança no sol solta tua voz
Que a luz te alcança
Dança
Dança
Que o mundo vai te esquecer
Que o mundo não vai lembrar
Dança
Dança
Cada surpresa desfaz o que for
Não é preciso guardar as canções
Cada intenção muda de cor
Cada alegria é uma voz
Que alguém vai ter que escutar
Sim, tudo é em vão, nada é em vão
Então descansa
Sim, nada demais, tudo se faz
Vira lembrança
Dança
Dança
Que o tempo vai te levar
Que o tempo vai sem você
Dança
Dança
Dança

Trilha sonora do filme Solidões…

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

__Carlos Nejar, Abandonei-me ao vento

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

__Sophia de Mello Breyner Andresen, Cidade, in Obra Poética I

 

(Fonte: feahrs)

Tudo se veste da cor de teu vestido azul 
Tudo — menos a dona do vestido: 
meus olhos te passeiam nua 
pela grama do campo de golfe 

Uma curva e eis-nos diante de meu coração 

Não amiga, não temas 
meu coração; 
é apenas um chapéu surrado 
que humildemente estendo 
para colher um pouco de tua alegria 
de tua graça distraída 
de teu dia 

Francisco AlvimManhã de Sol com Azulejos, em ’Sol dos Cegos’

quantas cidades 
te percorrem passo a passo 
antes de entrar nos mil lares 
que te aguardam 
é mesmo preciso usar sapatos 
porque não gastar na pedra 
uma pele que se lixa longe do 
tacto 
dentro do ônibus os dias 
viajam sentados 
em meio a ombros colados 
túneis esgoto bichos 
sorvetes coxas anúncios 
uma criança um adulto 
modelam a cidade 
na areia 
longe 

perto do coração onde 
uma cabeça gira o 
mundo 
correndo na grama a sombra 
de quantos assistem sentados 
enquanto das traves pende 
o corpo de um de todos 
enforcado 
enquanto as orelhas ouvem 
ouvem 
e não gritam 
há um fora dentro da gente 
e fora da gente um dentro 
demonstrativos pronomes 
o tempo o mundo as pessoas 
o olho 

Francisco AlvimCorpo, em ’Sol dos Cegos’

(Fonte: ronnienunez.wordpress.com)

Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode
entrar pelos teus olhos
mas só pela tua cabeça através
dos nomes dados pela minha cabeça
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes
e do mesmo modo
o que entra pelos teus olhos não pode
entrar pelos meus olhos
mas só pela minha cabeça através
dos nomes dados pela tua cabeça
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes
e assim o que tu vês
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres
e assim o que eu vejo
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de ti
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de mim
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez
tu a ti e eu a mim…
construindo urna consciência irrepetível e intransmissível
cada vez mais intensa e em si
tu em ti eu em mim
no entanto continuando a falar um com o outro
tu comigo e eu contigo
cada um
tentando dizer ao outro
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça
e porque é e para que é
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça
até que morra um de nós
e depois o outro…
"Encomenda do Silêncio", Alberto Pimenta (As Moscas de Pégaso)
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