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Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma, 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com o imaginá-las 
Que são mais nossas do que a nossa vida. 
Há tanta cousa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa, é nós… 
Por sobre o verdor turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas… 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo. 
 
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada. 
 
__Fernando Pessoa, 19/11/1935 – 11 dias antes de falecer

Álamos.

Essa música
de matutina cal.

Doces vogais
de sombra e água
num verão de fulvos
lentos animais.

Calhandra matinal
na areia
branca de junho.

Acidulada música
de cardos
e navalhas.

Música do fogo
em redor dos lábios.

Desatada
à roda da cintura.

Entre as pernas
junta.

Música
das primeiras chuvas
sobre o feno.

Só aroma,
abelha de água.

Repouso e regaço
onde o lume breve
duma romã brilha.

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

__Eugénio de Andrade, A música

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

 __Eugénio de Andrade, Os amantes sem dinheiro

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